Tu és o Cristo!


Os textos nos faz lembrar de um evento muito importante e que é um divisor de águas. Dia 18 é dia em que a igreja lembra a Confissão de Pedro.


Em que sentido essa confissão é um divisor de águas?


O que salva o pecador é a obra de Jesus. A fé na obra de Cristo salva! Só sei quem é Deus em Cristo, no ungido e enviado da parte de Deus (Mt 11.27). Essa verdade Pedro confessou. A igreja confessa essa verdade, aliás, sobre essa verdade a igreja está fundamentada.


Jesus indagou: Quem diz os homens que sou eu? A resposta dos discípulos mostra a confusão por parte das pessoas a respeito de Jesus. Não é desconhecimento da Palavra, mas uma interpretação equivocada.


Dessa forma ao responder que Jesus era João Batista – devia-se ao fato do povo ter adotado a mesma teoria de Herodes. Ou seja, Jesus era João Batista ressuscitado. A resposta de que Jesus era Elias, indicava que muitos se lembravam da profecia de que Elias voltaria (Ml 4.5). Por saberem que Elias havia sido levado vivo ao céu muitos supunham que Jesus era Elias enviado de volta e Ele era o precursor de Cristo.


O evangelista Mateus escreve que outros respondiam que Jesus era Jeremias. Isso devia-se as mais variadas lendas acerca desse profeta. Para muitos judeus, o profeta Zacarias havia sido a reencarnação de Jeremias. Acreditavam que a profecia anunciada por Moisés (Dt 18.15,18) referia-se ao ministério e pessoa do profeta Jeremias. Muitos acreditavam, conforme registrado em 2Macabeus 2.1-12 que o profeta Jeremias em algum momento devolveria à nação de Israel a arca original que ele havia escondido numa caverna. Acreditavam que Jeremias era uma espécie de anjo da guarda da nação.


Além de João Batista, Elias, Jeremias, outros diziam que Jesus era algum dos profetas. Essa ideia estava aflorada entre o povo, pois a tradição profética estava em vigor, afinal, os milagres mostravam que um profeta estava entre eles.


É preciso lembrar que a resposta acerca da pessoa de Jesus não era por ignorância bíblica, mas, confusão bíblica.


O povo de Deus tinha esperança messiânica, esperavam o cumprimento das profecias, porém, ignoravam a presença do próprio Messias entre eles. O apostolo João escreveu: “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11).


O evento que marca a confissão de Pedro ocorreu em Cesaréia de Filipe. O local geográfico merece ser enfatizado, pois era o centro do culto pagão ao deus grego Pan. Dessa forma convém refletir que além da confusão bíblica causada pelo equivoco da interpretação bíblica, havia por todos os lados muita religiosidade idolatra.


Numa região pagã e idolatra e em meio à influência religiosa e confusão bíblica, Pedro faz, pelo poder de Deus, a mais impactante confissão de fé: “Tu és o Cristo” (Mc 8.29).


Cristo tornou nome composto e até sobrenome de família. No entanto, conforme o Antigo e o Novo Testamento, Cristo não é nome, mas, um título especial. Cristo - é o ungido e o enviado de Deus para realizar algo. Assim, pelo poder do Espírito Santo, quando Pedro disse: Tu és o Cristo – estava dizendo: tu és o centro da salvação.


É preciso lembrar aos leitores e ouvintes da Bíblia que essa não foi à primeira vez em que essa confissão de fé foi dada pelos discípulos.


Quando André apresentou seu irmão Simão a Jesus o fez na convicção de que ele era o Messias (Jo 1.41). Natanael confessou que Cristo era o Filho de Deus (Jo 1.49). Após a tempestade em que Pedro caminhou sobre as águas, os discípulos declararam que ele era o Filho de Deus (Mt 14.33). Quando Jesus pregou e disse que ele era o “pão da vida” (Jo 6.68-69) e as pessoas abandonaram Jesus, Pedro confessou que eles criam que Jesus era o “santo de Deus.”


Tu és o Cristo - essa confissão é especial por dois motivos!


Primeiro: não é reação emocional diante de um milagre, mas uma confissão refletida e sincera.


Segundo: essa confissão tornou-se extraordinária por conduzir a outra verdade, muitas vezes esquecida. Jesus é o fundamento da igreja! Mateus registrou que Jesus disse que sobre esta confissão dada pelo Pai na boca de Pedro a sua igreja seria, estaria e continua edificada.


A pergunta de Jesus “quem dizem os homens que eu sou?” atravessa milênios e continua em discussão e oferece várias imagens de Jesus. Por vezes ele é milagreiro, um rei triunfante, um sacerdote, um psicólogo, um monge, um economista, um revolucionário e etc. Cada imagem de Jesus revela uma faceta da vivência de um indivíduo cristão.


A pergunta de Jesus continua nos interpelando: “quem dizem os homens que eu sou?” Levando em consideração o contexto histórico em que Jesus e a comunidade de Marcos viviam compreendemos uma situação especifica que ainda é real para muitos.


Entre o povo de Deus havia uma febre messiânica que os contagiava e movimentava. Depois de terem sido dominados e sofrido opressão sob a Babilônia, os persas e os gregos, o movimento revolucionário dos macabeus (166-63 a.C.) que despertou o desejo de libertação acabou fracassando. Mesmo assim, muitos pensavam que os líderes macabeus iriam libertá-los politicamente. Dessa forma, o que seria um movimento libertador, tornou-se uma monarquia tão opressora quanto à dos gregos. Dessa forma, a frustração do povo de Deus aumentou e nesse momento que os romanos obtiveram o domínio da Palestina. Assim, novamente uma potência estrangeira humilhava o povo de Deus e a terra prometida. E, além da alta carga de tributos, havia imposição de cultura e religiosidade. Houve muita revolta e indignação. Não bastassem, os romanos nomearam os idumeus que eram inimigos dos judeus para reger a Palestina ainda administrava Herodes Magno e seus filhos Arquelau, Antipas e Filipe, brutais e tiranos. Espalharam ódio e desespero no meio do povo. Arquelau sufocou a revolta dos judeus de Jerusalém, massacrando 3mil pessoas na praça do Templo na Páscoa. Reis herodianos construíram palácios em cidades como Cesáreia, Jerusalém, Séforis, Tiberíades, Jodefá, etc. Aumentaram tributos, intensificaram a exploração, opressão e a violência contra os camponeses (90% da população na Palestina). Famílias inteiras eram vendidas por causa das dívidas.


Os líderes religiosos nada fizeram, ao contrário, desempenhavam um papel visando seus próprios privilégios. A situação era tão grave que Deus colocou o seu precursor João Batista no deserto. O Templo, casa de oração, tornou-se um “covil de ladrões” (Mc 11.17).


O povo estava espiritualmente abandonado. Vivendo tensões sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas. Era natural o crescimento de movimentos de resistência com visão apocalíptica e escatológica do reino de Deus. Dessa maneira, num contexto histórico, recheado de revoltas populares, Jesus aparece diante do povo com a fama de ser mais um dos profetas. E assim, sua identidade era facilmente distorcida.


O povo que esperava um libertador político recebe o salvador dos pecados e tornou-se difícil aceita-lo como tal, por isso, o apostolo João destaca que veio para o seu povo, mas seu povo não o recebeu. Diante do Jesus crucificado muitos passaram a duvidar e reagir com desprezo, pois, como Jesus poderia ser um rei triunfante após ter sido humilhantemente morto.


O trabalho fundamental dos evangelistas com seus escritos foi definir a identidade de Jesus. Para construção dessa identidade narram a pergunta de Jesus Cristo: quem o povo diz que sou eu?


Com o objetivo de apresentar quem é Jesus, João Marcos inicia dizendo que Jesus é o prometido da parte de Deus conforme proclamado pelo seu proclamador. No batismo de Jesus ouvimos o próprio Deus dizer quem é Jesus (Mc 1.11). Os demônios também disseram quem é Jesus (Mc 1.25; 3.11; 5.7) e agora, ouve-se dizer quem é Jesus por boca dos discípulos.

Marcos apresenta que tipo de Jesus é o Cristo. Enquanto o povo aguardava o libertador político glorioso e poderoso, o evangelista diz que Jesus é o Messias que deveria sofrer, ser rejeitado, ser morto e ressuscitar (Mc 8.31).


Tu és o Cristo – Jesus é o ungido enviado da parte de Deus para realizar o grande e maravilhoso plano da salvação. Jesus é o centro da salvação. Amém.





Rev. Edson Ronaldo Tressmann

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