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  • PENSE NISSO Teológica

Falar é Curar

De fato, amigo leitor, a sociedade do século XXI submete à pessoa a um modelo de vida moldada pela busca incessante da perfeição. Tanto no acúmulo material, como nas teias de relações, ocorrendo uma sobrecarga de cobranças para atingir dados êxitos exigidos pela estrutura social. Com tais exigências, o indivíduo desenvolve males psíquicos devido ao acúmulo de ansiedades e medos. O modelo social progressista exige cada vez mais do ser humano uma vida constituída de contínuas vitórias. Se as vitórias exigidas não acontecem, o indivíduo é taxado como fracassado, alguém sem referência ou sem conceito. E tudo isso ocorre porque a pessoa não se adequou aos critérios sociais que pairam e moldam o sistema social. Diante de tal exclusão, o indivíduo desenvolve alguns sintomas: perda de interesse e prazer pela vida, energia reduzida, maior desgaste físico em atividades diárias, nervosismo, angústia, mudança de humor, por vezes demostrado por irritabilidade, em síntese, é o chamado mal do século, a depressão.


O mal do século, depressão, vem tomando proporções consideráveis com o desenvolvimento da história da humanidade. A depressão já era observada por Hipócrates, considerado por alguns o pai da medicina, ele usou certos termos para as áreas doloridas da mente: mania e melancolia, em 400 a. C. Desta maneira e ampliando o termo depressão, ela pode ser compreendida como um transtorno de saúde mental caracterizado por humor persistentemente deprimido ou perda de interesse em atividades, causando prejuízo significativo na vida diária. No Brasil, 5,8% da população enfrenta esse problema. Assim, estamos falando de uma doença que afeta 11,5 milhões de brasileiros. Conforme os dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) apontam que o Brasil é o país com maior incidência de pessoas depressivas na América Latina. Além disso, o Brasil é também o segundo país com maior incidência nas Américas, ficando somente atrás dos Estados Unidos, que têm 5,9% de sua população afetada por esse problema.


Vale ressaltar que a depressão não é um fingimento ou algum tipo de fraqueza, mas é uma doença psíquica, psicológica, que afeta o corpo e gera um desânimo diante da vida. Para o depressivo, a vida é como um peso, uma rocha que precisa ser empurrada diariamente. É como o mito de Sísifo, mitologia grega, onde os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o cume de uma montanha de onde a pedra se precipitava por seu próprio peso. E Sísifo, eternamente e como condição imposta pelos deuses, deveria refazer o curso com a pesada rocha. Tudo fica mais difícil para a pessoa com depressão, o indivíduo tem dificuldade em reter conhecimento; ele chora constantemente, nada o deixa feliz e animado para as coisas. Não cabe a ninguém julgar a pessoa que tem depressão, mas vale pensar o seguinte: o que Jesus faria em meu lugar? A pessoa deprimida precisa saber que Deus não a abandonou e que ela é uma criatura amada pelo Criador.

O povo de Deus precisa refletir o amor de Cristo Jesus para aquele que sofre. Tanto que Jesus acolheu os doentes: cegos, coxos, hemorrágicos, paralíticos, etc. Todo cristão deve vestir-se de misericórdia, humildade, delicadeza, perdão, consolo e levar tais tesouros para a pessoa com sintomas depressivos. Levando os mesmos, o indivíduo se torna um pequeno Cristo na vida da pessoa com depressão. Ele precisa apresentar amor de Deus para o seu próximo, neste caso, o depressivo. Um dos caminhos de grande valia para a relação com o depressivo é o ouvir. Ouvir é uma maneira de mostrar o acolhimento incondicional de Deus, ouvir sem insistir, isto é, a pessoa tece suas dores se ela quiser, no tempo determinado por ela própria. Por certo que a atitude de ouvir é um instrumento eficaz, porque ouvir é mostrar interesse, é apresentar para a pessoa com depressão de que ela não está sozinha. Ouvir, caro leitor, é receber o que está sendo falado e como está sendo falado. Quando o ouvir é ampliado, você não apenas ouve as informações, mas ouve a vida do outro: seu modo de ser, suas razões para aquilo que fala, seu contexto social, familiar, ou seja, o ouvir é como uma chave para abrir as portas do mundo particular do outro. Ouvir é uma mensagem silenciosa de respeito, de não julgar e apenas afirmar em meio ao silêncio: eu me importo com você e com a sua situação.


Mas falar é curar, sim, eu até coloquei como título deste artigo. A fala cura, pois comunicar é tornar algo comum com alguém. Partilhar é dividir o peso, podemos retornar, inclusive, para o mito de Sísifo, só que agora um pouco mudado: ao invés da rocha ser rolada somente por uma pessoa, ela pode ser empurrada com a ajuda de outra pessoa. É no partilhar que as coisas vão ficando mais leves: mensagens, significados, angústias e dúvidas, e as rochas, problemas, vão ficando cada vez mais leves com as boas doses de diálogo. Do diálogo brota a descarga emocional, a pessoa que fala vai levando a pessoa que ouve, a pessoa que ouve, conforme o desejo da pessoa que fala, vai cuidando dos afetos feridos da pessoa que fala. O sofrimento precisa de voz, ou como certa vez falou o escritor Machado de Assis: a dor no silêncio é uma dor dupla. A dor não é para viver no silêncio da vida, meu irmão, mas ela precisa ser expurgada, colocada para fora, senão as feridas vão, digamos assim, adquirindo, no decorrer da vida, novas roupagens, elas vão se ressignificando. São dores atualizadas e prontas para continuarem contribuindo no processo de sofrimento da pessoa.

No entanto, quando a ferida é lançada para fora por meio das palavras, com o auxílio daquele que ouve, o afeto dorido encontra o seu sentido nas cadeias de discurso, em síntese, antes era um afeto dissociado, deslocado, agora, ressignificado, resolvido, ele saudavelmente contribui para a vida daquele que antes sofria. Tudo ocasionado pela comunicação, pelo movimento de palavras entre o emissor e o receptor, onde os significados são trocados e transformados. Com isso, desabafar é ser franco consigo mesmo, é dar voz para a dor, pois verbalizar a dor é descobrir a sua origem e compreender seus sintomas.


A sociedade é um sintoma contínuo de feridas que se abrem na frágil natureza humana. Além de ela exigir altos padrões com contornos de uma suposta perfeição, ela tenciona para uma cultura narcísica e do espetáculo. O primeiro aborda a cultura do eu: eu posso, eu quero, eu falo, tudo é meu e assim por diante. É o individualismo absoluto, o mundo é visto a partir dos meus desejos e vontades e nada pode interferir. Enquanto que o segundo é voltado para a sociedade do espetáculo, o meu próximo é o meu objeto e eu posso fazer com ele o que o meu desejo mandar. O meu próximo é o meu usufruto. E assim o corpo social vai tencionando o indivíduo, moldando ele para o silêncio da dor e o descortinar de sintomas antes não presentes em sua vida. Tudo para uma suposta perfeição, uma perfeição impossível de ser alcançada pelo simples fato de ela não existir. E a tal perfeição inexistente vai deixando rastros na existência da pessoa: desânimo, fobias, coração acelerado, unhas roídas, sensação de morte, cansaços frequentes para, finalmente, sucumbir em sua arte final, o último traço do triste quadro, a depressão.


No entanto, eu gosto de lembrar do salmo 43, versículo 5, ele assim discorre: “Por que estou tão triste? Por que estou tão aflito? Eu porei a minha esperança em Deus e ainda louvarei. Ele é meu Salvador e Deus.” É o salmista que deseja ir para a casa de Deus e contemplar sua face, a casa de Deus é onde a Palavra de Deus está. Pois a Palavra não é uma construção humana, abstrata e com indagações filosóficas, mas ela é a boa notícia, isto é, Deus fala e atua por meio da Palavra. Ela é um ato presente porque Deus concede vida para os seres humanos. Ela é viva e ativa, incondicional e o seu conteúdo perfeito está na pessoa de Jesus Cristo, filho do verdadeiro Deus. A Palavra de Deus tem poder porque é capacitada pelo Espírito. Então, diante do exílio da dor ou desesperança, Deus está com o ser humano, Jesus está sempre presente. Seja qual for a situação: alegrias, tristezas, quedas e levantes, o salvador Jesus ali está com sua maravilhosa ação. E é sempre bom lembrar que Jesus teve sua expressão máxima de amor na cruz. Jesus que se sacrificou pela humanidade.


A depressão é um espaço de Jesus Cristo, Jesus habita nos sofrimentos humanos: nas feridas, nas dores, nas angústias, entre outros. Para derramar o seu amor, cuidado, amparo, carinho e todo o necessário que o homem precisa. A fé é um grande auxílio para o depressivo avançar em sua caminhada de melhoramento. Depressão não é falta de fé, mas a fé torna-se um indispensável instrumento para a melhora da pessoa. O versículo 5 do salmo 43 é um convite para a pessoa confiar em Deus. Confiar significa abrir o coração para Deus, orar, falar de tudo o que acontece, sem medo ou receio, porque tudo Deus faz para o bem da pessoa. Portanto, querido amigo, eis uma dica valiosíssima diante das intempéries dos afetos: converse com Jesus, ore para o verdadeiro e único Deus. Ele é por nós, ele é por ti e ele te ama intensamente. Ele está sempre te escutando e acolhendo as tuas feridas, aliás, como eu já mencionei anteriormente, ele habita nas mesmas. O sofrimento humano é a morada de Jesus. “Eu porei a minha esperança em Deus e ainda louvarei. Ele é meu Salvador e Deus,” diante de uma sociedade em busca de uma perfeição que não existe, fruto do pecado, a confiança está em Cristo Jesus e a oração é o baluarte contra os conceitos egoísticos do homem. Enfim, falar é curar, orar é curar, não deixe de conversar com Deus, Jesus Cristo. Eu até volto para o mito de Sísifo e digo: diante dele não existem mais rochas.



Pr. Artur Charczuk

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