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  • PENSE NISSO Teológica

E Ele lhes repartiu os haveres

O título citado acima é parte da parábola do filho pródigo, versículo doze, o mesmo se encontra na bíblia ARA. Na bíblia de Jerusalém assim está: “e o pai dividiu os bens entre eles”; NTLH, e o pai repartiu os bens entre os dois, enfim, todos os versículos apontam para um pai que está diante de seus filhos. Um dos filhos muito comunicativo e decidido, o outro introspectivo. O pai que repartiu, no grego o termo repartir quer indicar: separar, uma divisão, o pai que distribui algo para seus filhos. O filho mais jovem, também conhecido como pródigo, ou seja, do latim, que significa: dissipar, gastar, etc; descortina um cenário um tanto inusitado no segundo versículo da parábola, ele pede sua parte da propriedade que lhe caberia como herança. Tal desejo faz tecer um contexto atípico na cultura judaica. Pois o pedido do filho mais moço, em querer sua parte da herança com o pai ainda vivo, dá indícios de que ele está almejando a morte do pai. O Antigo Testamento é soberano com relação à repartição de bens, como em Dt 21. 17: “Mas ao filho da aborrecida reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto possuir, porquanto aquele que é o primogênito do seu vigor, o direito da primogenitura é dele.” O filho primogênito, por direito, deveria receber duas vezes mais com relação aos demais irmãos. Com isso, o pródigo deveria receber um terço de herança, caso o pai viesse a falecer.


Mas o pai não estava morto, pelo contrário, ao que tudo indica, ele estava perfeitamente bem e saudável. Eis o grande problema da questão: não era hábito repartir os haveres enquanto o pai estivesse vivo, conforme a tradição judaica. Tudo deve ser observado a partir do contexto, temos como exemplo 2 Rs 20.1: “Naqueles dias, Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal; veio ter com ele o profeta Isaías, filho de Amóz, e lhe disse: Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás.” Aqui temos um exemplo da morte que está próxima, de que um sucessor deve ser preparado para o trono. Mas o pai poderia transmitir sua herança por meio de duas maneiras: por meio de um testamento, realizado após a sua morte, ou através de uma doação feita em vida. Todas as instruções devidas se encontram nos textos Veterotestamentários, Números 27. 8-11: “Falarás aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém morrer e não tiver filho, então, fareis passar sua herança a sua filha. E, se não tiver filha, então, a sua herança dareis aos irmãos dele. Porém, se não tiver irmãos, dareis a sua herança aos irmãos de seu pai. Se também seu pai não tiver irmãos, dareis a sua herança ao parente mais chegado de sua família, para que a possua; isto aos filhos de Israel será prescrição de direito, como o SENHOR ordenou a Moisés.” Também podemos ver em Números 36. 7-9: “Assim, a herança dos filhos de Israel não passará de tribo em tribo; pois os filhos de Israel se hão de vincular cada um à herança da tribo de seus pais. Qualquer filha que possuir alguma herança das tribos dos filhos de Israel se casará com alguém da família da tribo de seu pai, para que os filhos de Israel possuam cada um a herança de seus pais. Assim, a herança não passará de uma tribo a outra; pois as tribos dos filhos de Israel se hão de vincular cada uma à sua herança.” Vejam que a possibilidade de um pai passar sua propriedade por meio de doação ainda em vida não é mencionada nos versículos do Antigo Testamento. Mas podemos ver um comportamento de Abraão que tenciona para tal possibilidade jurídica. Em Gênesis 25. 5-6: “Abraão deu tudo o que possuía a Isaque. Porém, aos filhos das concubinas que tinha, deu ele presentes e, ainda em vida, os separou de seu filho Isaque, enviando-os para a terra oriental.” De fato, era um costume que existia na sociedade judaica.


Mas o que temos é um episódio crítico, a ansiedade de um filho em dividir a herança e ter o direito de ter acesso a ela para poder ver o mundo. Pois dividir não significa possuir, caso isto não ocorresse, o rapaz não poderia ter gastado tudo como ele fez na região distante, porque o seu pai ainda estava vivo. Sendo assim, sua parte ele vende e parte para um mundo tão sonhado com seu capital e, ao mesmo tempo, ele abandona sua filiação. Ele ajuntou todas as suas coisas, levou tudo para que nada ficasse e para que nada desse motivo para ele voltar, ele não queria olhar para trás, tanto que ele, inclusive, tratou o seu pai como um morto. Nada mais existe, tudo já é passado e novos caminhos precisam ser descobertos. No tempo de Jesus, era muito comum a emigração, ou seja, judeus que saíam da Palestina em busca de novas condições no exterior.


Vale ressaltar que os acontecimentos do capítulo quinze ocorreram no terceiro ano da vida pública de Jesus, além do Jordão. O Senhor passava por aldeias e cidades, pregando e ensinando, indo em direção à Jerusalém, Lc 13. 22. O seu público estava composto por pecadores, publicanos, fariseus e os escribas. Mas olhemos novamente para o título deste texto: “e ele lhes repartiu os haveres,” o pai que atendeu ao pedido de seu filho sem pensar duas vezes, em simplicidade e amor, distribuiu seus bens, o pai não oferece resistência ao desejo do filho. O pai é a figura de Deus na parábola, cheio de misericórdia e bondade para com o ser humano. O Deus que ama profundamente o filho perdido, afastado, pródigo, todos são chamados por Ele. E Deus está sempre pronto para distribuir seus haveres pela humanidade. Na verdade, o Criador dissipa continuamente seus dons celestiais pelos homens. Ele esbanja sua compaixão, misericórdia, cuidado, carinho, em síntese, o amor de Deus é ilimitado. Amor que está em Jesus Cristo, onde o Senhor mostrou o seu amor sem fronteiras, a tal ponto de entregá-lo para o sofrimento da crucificação. O Deus que distribui tudo em favor da humanidade, inclusive o seu amado Filho.


Sim, Deus continua repartindo seus haveres, Jesus nos convida para termos acesso a tais dádivas: perdão, salvação e a vida eterna. Jesus, o haver mais precioso do Pai, nos dá a maravilhosa mensagem: somos parte da propriedade do Pai, Ele reparte seus haveres para nos juntar, seu povo, propriedade sua.


Rev. Artur Charczuk

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